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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Ouviram no Ipiranga o que nunca existiu

Não há problema nenhum em cantar o Hino, seja o Nacional, o do Corinthians ou o da Internacional Comunista. A questão é que a simbologia do patriotismo que carrega a letra do Hino Nacional já está tão desgastada quando as cores da nossa bandeira, que pouco ainda resta do verde e amarelo das nossas reservas e o céu azul já não existe mais, apesar destas cores serem uma herança malfadada da bandeira da Coroa Portuguesa, como um vínculo maltrapilho de uma colonização que insiste em agonizar como um morto-vivo com os herdeiros tentando sair a todo o tempo de suas tumbas para reivindicar "seu direito ao trono". No entanto, o único trono que nos restou foi a privada, ou das privatizações, algumas que acabaram em lama e dor.
Não há problema em cantar o Hino, desde que se saiba de cor a letra. "Ouviram no Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico um brado retumbante". Não basta colocar a mão no coraçãozinho e mexer a boca fingindo que canta feito jogador de futebol ou presidente forjado da república. É preciso também compreender o teor da letra. De que adianta impor às nossas crianças ficar repetindo um hino que em nada, absolutamente nada, se reflete em suas vidas pouco e mal vividas? Em que os brados não retumbam nas paredes apodrecidas e mofadas das escolas públicas, em que o sol da liberdade em raios fugidos não brilha no céu dessa pátria e nem nunca se viu brilhar, nem neste e em nenhum instante, pelo menos não nos céus das periferias e fundões, nos mangues, nos sertões, nas palafitas, nas favelas. Talvez se brilhe nos grandes salões do Palácio da Alvorada, nas grandes mansões do Morumbi, mas nunca no Paraisópolis.
De que adianta um hino que não representa em nada a realidade de um povo, que como tudo nessa terra respira mentira e fake news, em que o Imperador Pedro I, então príncipe regente, mal se mantinha em pé em seu burrico de tão manguaçado e com as calças borradas de merda pela constipação que sofria depois de uma deliciosa noite de esbornia, ao tentar frustadamente entoar seu brado retumbando no Ipiranga. Um Pátria Amarada onde uma data de fachada, com uma história de fachada e um hino de fachada impostos por um governo de fachada tentando transformar um Gigante pela própria natureza em belo, forte impávido, colosso.
Mas todos nós, brasileiros, sabemos, alguns pela dor, pela fome e exploração, outros pelos privilégios disfarçados de meritocracias, todos nós sabemos muito bem, que entre outras mil, és tu, Brasil, ó Pátria amada, somente para alguns poucos filhos tu és mãe gentil.

Alessandra Cavagna (27/02/2019)

Pátria explorada, Brasil.

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