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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Paraíso, Consolação, Liberdade.



Escrito por: Alessandra Cavagna 

O primeiro encontro, deveras curioso, deu-se em situação semelhante.
Ela havia acabado de sair do escritório numa noite chuvosa. Permaneceu algum tempo sob o toldo de uma loja esperando a chuva passar. Sem sucesso. “Deveria ouvira mais vezes a mãe”. Lembrava-se daquela manhã ensolarada quando saia de casa e a mãe lhe barrou:
- Não vai levar o guarda-chuva?
- Pra quê? Está um dia lindo!
- Mas vai chover à tarde.
- Ai, mãe, que bobagem! O céu não dá nem sinal de chuva!
- Mas meu pé está quente e a marca da vacina coçando. Quando isso acontece é chuva na certa.
Não deu ouvidos às previsões maternas e agora estava lá, esperando a chuva passar.....................................................................................................................................................................................................................................e não passava.
”Deve ser praga de  mãe! Praga de mãe é como mandíbula de Pit Bull: quando pega não solta mais”.
- Ah, que se dane! Acabo com a chapinha do meu cabelo, mas encaro essa!
Atravessou a rua debaixo dos pingos, com seu taillerzinho azul-repartição-pública e seu scapin de pelica preto. Caminhou espremida entre os guarda-chuvas, que insistiam em passar sob as marquises dos prédios.
- Deveriam deixar as marquises para os desprevenidos e teimosos como eu!
De uma hora pra outra começou a coçar tudo: O nariz coçava, a garganta coçava, os olhos coçavam, e a coceira foi aumentando, aumentando até explodir em um espirro.
- Aaaaaaaaaatchin!
Desceu correndo as escadas rolantes do metrô Saúde e entrou no vagão. Não tinha lugar pra sentar. Tudo bem! Estava cansada de ficar o dia todo sentada naquele escritório. O grande problema de ficar em pé no metrô são os assédios. Vira e meche aparece um engraçadinho querendo bulir em nádega alheia.
Desceu no Paraíso pra fazer baldeação.

“Tinha que chover justo hoje!” . Ele pensava enquanto consultava insistentemente o relógio de pulso. Ia acabar perdendo o jogo do Corinthians. Não gostava de ir aos estádios porquê não gostava de muvuca, muito menos de torcida organizada. Assistiria ao jogo pela televisão, em casa, comendo pipocas. O problema é que em dias de chuva São Paulo se transforma no próprio inferno. Até chegar na Sé, fazer baldeação pra Zona Leste, esperar no mínimo três vagões passarem abarrotados de gente. Ir espremido, feito sardinha enlatada até Itaquera, esperar a lotação que demorava no mínimo quarenta minutos pra chegar perto da sua casa, e que só saia do ponto quando estava totalmente lotada, ou seja, um em cima do outro. Sem contar o transito e os trens que andam a passos de tartaruga sobre os trilhos em dias de chuva. Pelo jeito o único Corinthians que conseguiria ver naquela noite era o do letreiro do metrô.
Deveria ter ficado para assistir o jogo com os amigos no bar do Pedrão. Mas a grana tava curta e a dívida com o Pedrão longa. Se o dono do bar visse sequer a sua sobra passar pelo outro lado da rua, teria que agüentar a noite toda os resmungos e as cobranças da pior espécie. Melhor não.
Desceu as escadas do Paraíso e atravessou a catraca.

Parecia novela do SBT. Que coisinha mais piegas!
Ela saiu do vagão no mesmo instante em que ele entrava. A trombada foi inevitável.
Lição de física número um: Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Conclusão: O scarpin de pelica preto do pé direito caiu na vala do metrô.
- Não enxerga, não, idiota?
- Desculpe! É que...
- É que ninguém te avisou que esperasse o povo sair para poder entrar. Puta que o pariu! Como vou pra casa agora? Um pé calçado e o outro descalço. Culpa sua! Vai ter que me ressarcir!

O coitado não sabia onde esconder a cara. Enquanto isso ela berrava a plenos pulmões.
- Senhora! Vamos tentar resolver esta situação amigavelmente. Tem aqui próximo um shopping center. Vamos até lá e eu compro outro par de sapatos para a senhora.
”Teria que pendurar no cartão que já estava pra estourar, mas qualquer coisa era melhor que ouvir aquela mulher gritando em seu ouvido. Se fosse outro, já teria sumido no meio da multidão, deixando a pobre Cinderela sem seus sapatinhos. Mas este tipo de atitude ia contra os seus princípios”.
- Você acha que vou até o shopping nessas condições ridículas?
- Façamos o seguinte: eu vou até lá, compro um par de sapatos e trago-lhe aqui.
- Há, há, há, há, ha! Duvido que volte!
- Prometo! Qual seu número?
- Eu vou com o senhor. – Tirou o pé do scarpin que havia restado e atirou no lixo.
”Ai, ai, ai, ai! Só faltava aquela mulher querer escolher um par de sapatos que lhe custasse os olhos da cara”.
Caminhavam em direção à saída da estação, quando ele olhou-a discretamente, não o suficiente para que ela não percebesse.
- O que está olhando? Nunca viu ninguém andar descalça na chuva?
- Sabe que tem até um certo charme?
- Como?
- Digo...uma certa graça.
- O que disse? – E soltou mais um espirro.
- Vai se resfriar!
- Se eu morrer, juro que lhe processo.
“ Ainda por cima é louca!”
- Deveria fazê-lo carregar-me no colo até lá!
- Está me achando com cara de burro de carga?
- Talvez.
- A senhora está me ofendendo. Se continuar dessa maneira, largo-lhe descalça aqui mesmo e vou pra casa assistir o jogo do Corinthians. Faço-lhe um favor de lhe comprar um par de sapatos, e é assim que a senhora me trata?
- O único favor que eu gostaria que o senhor me tivesse feito era o de nunca ter aparecido em minha frente. Assim não estaria nesta situação... constrangedora.
Sentou-se na escadaria do metrô e começou a chorar feito uma criança que acabara de perder um brinquedo
– Que vergonha, meu Deus! Que vergonha! – “Nunca se imaginara em tal situação. Aquele homem tinha que aparecer em sua frente naquele instante e colocá-la em tal saia justa?...Ou melhor, sapatos justos?...Ou melhor, sem sapatos?”
Ele por sua vez perdeu toda a altivez que por instantes havia conquistado, ao ver aquela figura tão forte mostra-se tão fragilizada. Tirou um pacote de lenços de papel do bolso e lhe ofereceu.
- Obrigada!
E tornou a espirrar.
- Vamos resolver esta situação de uma vez por todas. Tenha calma. Eu vou ao shopping, compro os sapatos e lhe trago. A senhora não pode andar por aí assim. Qual seu numero?
- Trinta e sete. Mas não vá comprar um par de sapatos horrorosos, senão é possível que eu vá descalça mesmo pra casa.
- Sei que não me conhece, mas confie em mim, pelo menos um pouquinho. Não demoro.
Situação resolvida. Cada qual seguiu seu rumo. Ele para o seu Corinthians e ela para a Consolação.

Já havia se esquecido daquela cena dantesca quando anos depois se esbarraram novamente na mesma estação. Dessa vez ambos pegaram o mesmo vagão.
- Olá! Não a conheço de algum lugar?
- Já ouvi essa cantada mais de mil vezes. Que tal mudar o repertório.
- E por que eu iria cantá-la. Detesto mulher malcriada.
- E eu detesto homem entrão!
- Como vão os sapatos?
- Que sapatos? Aqueles medonhos que o senhor comprou?
- Pelo menos chegou em casa com os pés agasalhados.
- Eles já estavam agasalhados antes do senhor aparecer.
- Acha mesmo que fiz de propósito? Tanto tempo e ainda não me perdoou!
- Deveria?
- Por que não?
- ...
- ...
- ...
- Está indo pra onde?
- Pra liberdade.
- Eu também. Está morando lá agora?
- Mudei-me a pouco tempo! Você também está morando lá?
- Cansei de perder o jogo do Corinthians. Desculpe, mas ainda não nos apresentamos. Meu nome é Deodoro.
- Chamo-me Cecília.

E seguiram seus destinos.
Lição de física número dois: Dois corpos podem até ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, mas somente por algumas estações.





2 comentários:

  1. E eu, que tive a sorte de estar atrás de Dom Deodoro na plataforma, na primeira ocasião, e de estar sentado num banco do vagão indo também para a Liberdade, da segunda feita, presenciei as duas cenas o suficiente para compreender toda a esparrela, do início ao fim. Então escrevi no meu bloquinho — É como dizia o Barão de Itararé: "De onde menos se espera, daí é que não sai nada".

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  2. O Marechal poderia até ter sido um devoto da Santa Cecília, mas a santa era das brabas e Deodoro recolheu-se a sua insignificância de bom sujeito. Quanto à metafisica do conto: o Paraíso ficou perdido lá atrás, a Consolação foi eficiente porém passageira, e a Liberdade, como sempre, uma coisa para chegar, ou nós chegamos até ela. Já pensou se agregássemos a este conto o Rio de Janeiro? Neste caso, iriam todos para a Glória!

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