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Prefiro a fúria dos "loucos" a hipocrisia dos "sãos"

domingo, 7 de março de 2021

Canção da flor violentada

 


(à todas as mulheres da Vila Brasilândia com quem convivo, cuido e luto) 

Não, eu não quero flor.

Já disse que não quero flor!

Quero dignidade, respeito, equidade!

Que adianta trazer flor depois de me fazer tanta maldade?

Depois que me oprimiu, me bateu, me agrediu,

Interrompeu a minha fala...

Enquanto tua boca berra, a minha boca cala?

 

Eu sou a burra, a louca, a puta, a outra,

Sou aquela que tu cospe e depois beija a boca

Sabe o que tu faz?

Pega a tua flor e dá pro puto que te pariu!

 

- Solta esse cabelo!  A saia ta curta!

- Parece uma biscate! Vão achar que tu é puta!

- Depois te estupram, aí vem com mimimi!   

- A culpa é tua! Senta aqui ne mim!  

- Pra que esse batom vermelho?

- Para com essa latomia! Deixa eu chupar teu grelo!

 

De onde tu tirou que eu sou mercadoria?

Não sou coisa, não sou tampa, nem panela vazia.  

Não sou a metade da tua laranja.

Não preciso de ti pra me completar.   

Sou completa, sou inteira.  

Só quero ao meu lado quem puder me transbordar!

 

Agora tu vem me dando parabéns?

Não é meu aniversário, não ganhei na loteria.

Ai me traz essa flor, vem e me acaricia.  

Ainda não tô morta, apesar da tua valentia!

 

Vem cá, diz pra mim!

Tu tem certeza que eu sou assim:  

Indefesa, frágil, submissa?  

Tu te cuida, macho! Se liga! 

Vou te mostrar o que é ser de briga:

A cada dor que eu sinto...

A cada parto,

A cada contração,

A cada noite sem dormir,

A cada pontapé,

A cada xingo,

A cada puxão de cabelo,

A cada sexo sem desejo,

A cada desejo sem sexo,

A cada exploração do meu corpo,

A cada exploração da minha carne,

A cada choro engolido,

A cada grito contido,

A cada ruga que nasce,

A cada veia que explode,

Eu me reconheço e me refaço.

Com outras dores criei lastro.

Me fortaleço na luta dos oprimidos,  

Dos trabalhadores, dos negros, das mães,

Dos gays, dos loucos, das trans,

Dos bêbados e desvalidos.

Já não sou só uma, sou um milhão,

Lutando pelo direito de estar viva nesse chão.

 

Me dou o direito de gritar e lutar, viu!

Contra todo um sistema que estrutura a perversão.

Tu é preto e não sabe disso, não?

Então, bota a cabeça no travesseiro e pensa:  

Com quem neste mundo fica todo o seu dinheiro?

Comigo é que não é, eu tenho o meu quinhão.

É com o banqueiro e com aquele lá, o teu patrão.

É com o dono do boteco, com o traficante, com o pastor da Igreja.     

De que adianta ser tão bom numa peleja,   

Se tu não sabe quem é teu inimigo?

Ora, ora, veja! Não é meu só o castigo!   

Então, tira tua mão do sangue e desata esse grilhão!

Não te fica bem esse papel de feitor e nem de capitão.  

 

Mas, tira daqui essa flor! Em mim tu não bate mais, não!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

A CURIOSIDADE DESPERTOU O GATO...E O CÃO

 



Quando criança brincava com o vento.

Queria domar o vento,

Pegar o vento,

Sentir o vento,  

Ver o vento.

Brincava com a terra,   

Queria explorar a Terra,  

Cavar uma cova bem funda pra chegar à China.  

Minha curiosidade sempre foi meu maior atributo e minha maior desgraça.

 

Hoje adulta que sou, quero entender a mente, a sociedade, a arte, a cultura.

Mas o pouco tempo que me resta só é pra organizar as coisas ao me redor.

 

Eu, mulher, sem deixar a criança que há em mim, não em meu ventre, mas em minha essência, morrer,  

Quando eu, trabalhadora, secando gelo nessa coisa capitalista que chamam de Saúde Mental,

Quando eu, artista, quebrando pedra nessa coisa insalubre que chamam de economia sustentável,

Quando eu, ser espiritual nessa coisa dogmática chamada religião,

Quando eu, mãe, filha e irmã, nessa coisa nevrálgica chamada família  

Quando eu ser e humana, terei direito ao meu ócio criativo para voltar a domar o vento, explorar  a Terra e chegar à China? 

                                              

 

Alessandra Cavagna

São Paulo, 25 de janeiro de 2021             

 


sexta-feira, 2 de agosto de 2019

"Estou me exigindo muito e quando isso acontece acabo fugindo de mim".

sexta-feira, 12 de abril de 2019

PARA PILAR E EDU




Osalá fez um Sarau no Orum e levou nossos amigos pra recitar.  
Levaram um bocado de poesia pro lado de lá. 
Quem sabe agora chova pétalas de Amor sobre a Terra!
Quem sabe a Justiça e a Liberdade se tornem garantias para as Carolinas em seus quartos de despejo!   
Quem sabe o Sol se faça brilhar para os Malucos Beleza de Pedra! 
Quem sabe o Mar lave com lágrimas dos olhos de quem fica todas as feridas que sobraram das senzalas. 
Quem sabe a luz de abrir os olhos neste dia de luto e saudades se transforme no Pilar dessa nossa luta!  
Choram os que ficam. 
Saudades dos que vão. 
Só a Poesia e a Lutadeclasses Salvam.  

Alessandra Cavagna

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Ouviram no Ipiranga o que nunca existiu

Não há problema nenhum em cantar o Hino, seja o Nacional, o do Corinthians ou o da Internacional Comunista. A questão é que a simbologia do patriotismo que carrega a letra do Hino Nacional já está tão desgastada quando as cores da nossa bandeira, que pouco ainda resta do verde e amarelo das nossas reservas e o céu azul já não existe mais, apesar destas cores serem uma herança malfadada da bandeira da Coroa Portuguesa, como um vínculo maltrapilho de uma colonização que insiste em agonizar como um morto-vivo com os herdeiros tentando sair a todo o tempo de suas tumbas para reivindicar "seu direito ao trono". No entanto, o único trono que nos restou foi a privada, ou das privatizações, algumas que acabaram em lama e dor.
Não há problema em cantar o Hino, desde que se saiba de cor a letra. "Ouviram no Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico um brado retumbante". Não basta colocar a mão no coraçãozinho e mexer a boca fingindo que canta feito jogador de futebol ou presidente forjado da república. É preciso também compreender o teor da letra. De que adianta impor às nossas crianças ficar repetindo um hino que em nada, absolutamente nada, se reflete em suas vidas pouco e mal vividas? Em que os brados não retumbam nas paredes apodrecidas e mofadas das escolas públicas, em que o sol da liberdade em raios fugidos não brilha no céu dessa pátria e nem nunca se viu brilhar, nem neste e em nenhum instante, pelo menos não nos céus das periferias e fundões, nos mangues, nos sertões, nas palafitas, nas favelas. Talvez se brilhe nos grandes salões do Palácio da Alvorada, nas grandes mansões do Morumbi, mas nunca no Paraisópolis.
De que adianta um hino que não representa em nada a realidade de um povo, que como tudo nessa terra respira mentira e fake news, em que o Imperador Pedro I, então príncipe regente, mal se mantinha em pé em seu burrico de tão manguaçado e com as calças borradas de merda pela constipação que sofria depois de uma deliciosa noite de esbornia, ao tentar frustadamente entoar seu brado retumbando no Ipiranga. Um Pátria Amarada onde uma data de fachada, com uma história de fachada e um hino de fachada impostos por um governo de fachada tentando transformar um Gigante pela própria natureza em belo, forte impávido, colosso.
Mas todos nós, brasileiros, sabemos, alguns pela dor, pela fome e exploração, outros pelos privilégios disfarçados de meritocracias, todos nós sabemos muito bem, que entre outras mil, és tu, Brasil, ó Pátria amada, somente para alguns poucos filhos tu és mãe gentil.

Alessandra Cavagna (27/02/2019)

Pátria explorada, Brasil.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Sexo e Poesia

Se a chama já ardia
mesmo antes da expressão
Embora a fome e o tesão
Compartilham da mesma matéria
É na artéria​ que se engendra o verso
E no sangue se transporta com o ar.
E o poeta lá está
a misturar libido e fantasia
Numa alquimia
De suor, pele e gemidos,
Num frenesi de sentidos
Que num orgasmo enlouquecido
Dá luz à poesia.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Relações abusivas. Isso não tem nada haver com amor.



No dia dos namorados vale a pena tratar de um assunto bem pertinente. Relações abusivas. Isso não tem nada haver com amor. Se vc estiver com uma pessoa com quem não se sente à vontade e que te cause constrangimentos, repense se essa relação realmente vale a pena! Não procure no outro aquilo que só vc pode dar a si mesmo! Amor é via de mão dupla. Se tudo só vai e não volta, não é amor é dispêndio e desgaste de energia psíquica. Lembre-se de se amar antes de tudo para não incorrer no erro de se amarrar à um cadáver para o resto da vida. Para se haver amor, antes de tudo deve-se haver respeito, cumplicidade, tesão, amizade, admiração, confiança. O amor é um construto de todos esses sentimentos. Não existe esse amor incondicional e de conto de fadas e é possível escolher sim a quem se ama. É só olhar do lado pra quem te valoriza e te respeita. Então, não caia nessa armadilha burguesa dos amores de castelos de areia. Vc não é uma princesa e príncipes encantados não existem! Se liga, miga! Depois de algumas transadas é possível que o príncipe se transforme em um sapo. Então não crie expectativas acima daquilo que puder esperar das pessoas pra não ter que ficar idealizando um boneco de farinha pra quando bater um pé de vento voar pra longe e te deixar a ver navios! E se vc estiver sozinha, gata, aproveita esse momento para amar a única pessoa desse mundo que mais merece o seu amor! Vc mesma.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Jogo da Vida

Esqueça dos teus ais!
De que vale se queixar da barreira que nunca existiu?
Sente-se saudades do que ficou,
não dos beijos nunca trocados,
dos olhares sem cumplicidade,
das mãos nunca tocadas,
dos silêncios sem verdades.
As coisas se dão por mistérios e desigualdades.
O que se espera é o que não virá.
O que se quer não se conseguirá.
Pare! Volte duas casas,
vinte se for preciso.
Não é desistir dos sonhos,
mas conciliá-los com a realidade.

Carta da Musa ao Poeta

Então, o poeta pergunta: "O que é o amor?"
Mas, se o amor só existe porque existe o poeta!
O poeta está para o amor, assim como o amor está para a poesia e a poesia para a essência do viver.
Então, o poeta pergunta: 
"Se é que ele existe, 
o que é o amor?"
- Oras, poeta, se eu pudesse te responder não me valeria de palavras. 
As palavras se dissolvem como o sólido, no ar. 
As palavras tem o dom da dubiedade, 
tanto podem esclarecer como enganar. 
As palavras nem sempre expressam sentimentos, 
às vezes se sente uma coisa, 
se pensa outra, 
e se fala ainda outra. 
Te responderia com o meu corpo,
porque o amor só sobrevive na dialética dos corpos;
Te responderia dando espaço em minha vida,
porque o amor só se constrói ou se destrói na dialética da convivência diária;
Te responderia com os meus olhos, 
porque neles está a minha essência de vida; 
Te responderia com meus pensamentos, 
pois são neles que o poeta vive a versar. 
Mas, como entre nós só existe a distância, poeta, 
Só estas palavras poderei te dar. 




Em homenagem a Luis Carlos Ruas, O Índio.

Pindorama,
Quem te fez Brasil
Não sabe a força que tens.
Não sabe dos teus ais,
Não sabe da tua loucura
E a de teus pais.
Vives nas Ruas
Vendendo mascate,
Bebendo cachaça,
Fazendo biscate.
Corres com o vento
Foges do rapa,
Tropeças no ódio,
Pra vender seus piratas.
Hoje é a Brasil
Que defendes a vida.
Bandeirantes bandidos
Fascistas facínoras
Aos chutes e socos
Te arrancam as viceras.
Olhos omissos
De covardes perversos
Assistem felizes
À barbárie e a morte
De quem teve a coragem
Somente de amar
em tempos de trevas.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Paraíso, Consolação, Liberdade.



Escrito por: Alessandra Cavagna 

O primeiro encontro, deveras curioso, deu-se em situação semelhante.
Ela havia acabado de sair do escritório numa noite chuvosa. Permaneceu algum tempo sob o toldo de uma loja esperando a chuva passar. Sem sucesso. “Deveria ouvira mais vezes a mãe”. Lembrava-se daquela manhã ensolarada quando saia de casa e a mãe lhe barrou:
- Não vai levar o guarda-chuva?
- Pra quê? Está um dia lindo!
- Mas vai chover à tarde.
- Ai, mãe, que bobagem! O céu não dá nem sinal de chuva!
- Mas meu pé está quente e a marca da vacina coçando. Quando isso acontece é chuva na certa.
Não deu ouvidos às previsões maternas e agora estava lá, esperando a chuva passar.....................................................................................................................................................................................................................................e não passava.
”Deve ser praga de  mãe! Praga de mãe é como mandíbula de Pit Bull: quando pega não solta mais”.
- Ah, que se dane! Acabo com a chapinha do meu cabelo, mas encaro essa!
Atravessou a rua debaixo dos pingos, com seu taillerzinho azul-repartição-pública e seu scapin de pelica preto. Caminhou espremida entre os guarda-chuvas, que insistiam em passar sob as marquises dos prédios.
- Deveriam deixar as marquises para os desprevenidos e teimosos como eu!
De uma hora pra outra começou a coçar tudo: O nariz coçava, a garganta coçava, os olhos coçavam, e a coceira foi aumentando, aumentando até explodir em um espirro.
- Aaaaaaaaaatchin!
Desceu correndo as escadas rolantes do metrô Saúde e entrou no vagão. Não tinha lugar pra sentar. Tudo bem! Estava cansada de ficar o dia todo sentada naquele escritório. O grande problema de ficar em pé no metrô são os assédios. Vira e meche aparece um engraçadinho querendo bulir em nádega alheia.
Desceu no Paraíso pra fazer baldeação.

“Tinha que chover justo hoje!” . Ele pensava enquanto consultava insistentemente o relógio de pulso. Ia acabar perdendo o jogo do Corinthians. Não gostava de ir aos estádios porquê não gostava de muvuca, muito menos de torcida organizada. Assistiria ao jogo pela televisão, em casa, comendo pipocas. O problema é que em dias de chuva São Paulo se transforma no próprio inferno. Até chegar na Sé, fazer baldeação pra Zona Leste, esperar no mínimo três vagões passarem abarrotados de gente. Ir espremido, feito sardinha enlatada até Itaquera, esperar a lotação que demorava no mínimo quarenta minutos pra chegar perto da sua casa, e que só saia do ponto quando estava totalmente lotada, ou seja, um em cima do outro. Sem contar o transito e os trens que andam a passos de tartaruga sobre os trilhos em dias de chuva. Pelo jeito o único Corinthians que conseguiria ver naquela noite era o do letreiro do metrô.
Deveria ter ficado para assistir o jogo com os amigos no bar do Pedrão. Mas a grana tava curta e a dívida com o Pedrão longa. Se o dono do bar visse sequer a sua sobra passar pelo outro lado da rua, teria que agüentar a noite toda os resmungos e as cobranças da pior espécie. Melhor não.
Desceu as escadas do Paraíso e atravessou a catraca.

Parecia novela do SBT. Que coisinha mais piegas!
Ela saiu do vagão no mesmo instante em que ele entrava. A trombada foi inevitável.
Lição de física número um: Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Conclusão: O scarpin de pelica preto do pé direito caiu na vala do metrô.
- Não enxerga, não, idiota?
- Desculpe! É que...
- É que ninguém te avisou que esperasse o povo sair para poder entrar. Puta que o pariu! Como vou pra casa agora? Um pé calçado e o outro descalço. Culpa sua! Vai ter que me ressarcir!

O coitado não sabia onde esconder a cara. Enquanto isso ela berrava a plenos pulmões.
- Senhora! Vamos tentar resolver esta situação amigavelmente. Tem aqui próximo um shopping center. Vamos até lá e eu compro outro par de sapatos para a senhora.
”Teria que pendurar no cartão que já estava pra estourar, mas qualquer coisa era melhor que ouvir aquela mulher gritando em seu ouvido. Se fosse outro, já teria sumido no meio da multidão, deixando a pobre Cinderela sem seus sapatinhos. Mas este tipo de atitude ia contra os seus princípios”.
- Você acha que vou até o shopping nessas condições ridículas?
- Façamos o seguinte: eu vou até lá, compro um par de sapatos e trago-lhe aqui.
- Há, há, há, há, ha! Duvido que volte!
- Prometo! Qual seu número?
- Eu vou com o senhor. – Tirou o pé do scarpin que havia restado e atirou no lixo.
”Ai, ai, ai, ai! Só faltava aquela mulher querer escolher um par de sapatos que lhe custasse os olhos da cara”.
Caminhavam em direção à saída da estação, quando ele olhou-a discretamente, não o suficiente para que ela não percebesse.
- O que está olhando? Nunca viu ninguém andar descalça na chuva?
- Sabe que tem até um certo charme?
- Como?
- Digo...uma certa graça.
- O que disse? – E soltou mais um espirro.
- Vai se resfriar!
- Se eu morrer, juro que lhe processo.
“ Ainda por cima é louca!”
- Deveria fazê-lo carregar-me no colo até lá!
- Está me achando com cara de burro de carga?
- Talvez.
- A senhora está me ofendendo. Se continuar dessa maneira, largo-lhe descalça aqui mesmo e vou pra casa assistir o jogo do Corinthians. Faço-lhe um favor de lhe comprar um par de sapatos, e é assim que a senhora me trata?
- O único favor que eu gostaria que o senhor me tivesse feito era o de nunca ter aparecido em minha frente. Assim não estaria nesta situação... constrangedora.
Sentou-se na escadaria do metrô e começou a chorar feito uma criança que acabara de perder um brinquedo
– Que vergonha, meu Deus! Que vergonha! – “Nunca se imaginara em tal situação. Aquele homem tinha que aparecer em sua frente naquele instante e colocá-la em tal saia justa?...Ou melhor, sapatos justos?...Ou melhor, sem sapatos?”
Ele por sua vez perdeu toda a altivez que por instantes havia conquistado, ao ver aquela figura tão forte mostra-se tão fragilizada. Tirou um pacote de lenços de papel do bolso e lhe ofereceu.
- Obrigada!
E tornou a espirrar.
- Vamos resolver esta situação de uma vez por todas. Tenha calma. Eu vou ao shopping, compro os sapatos e lhe trago. A senhora não pode andar por aí assim. Qual seu numero?
- Trinta e sete. Mas não vá comprar um par de sapatos horrorosos, senão é possível que eu vá descalça mesmo pra casa.
- Sei que não me conhece, mas confie em mim, pelo menos um pouquinho. Não demoro.
Situação resolvida. Cada qual seguiu seu rumo. Ele para o seu Corinthians e ela para a Consolação.

Já havia se esquecido daquela cena dantesca quando anos depois se esbarraram novamente na mesma estação. Dessa vez ambos pegaram o mesmo vagão.
- Olá! Não a conheço de algum lugar?
- Já ouvi essa cantada mais de mil vezes. Que tal mudar o repertório.
- E por que eu iria cantá-la. Detesto mulher malcriada.
- E eu detesto homem entrão!
- Como vão os sapatos?
- Que sapatos? Aqueles medonhos que o senhor comprou?
- Pelo menos chegou em casa com os pés agasalhados.
- Eles já estavam agasalhados antes do senhor aparecer.
- Acha mesmo que fiz de propósito? Tanto tempo e ainda não me perdoou!
- Deveria?
- Por que não?
- ...
- ...
- ...
- Está indo pra onde?
- Pra liberdade.
- Eu também. Está morando lá agora?
- Mudei-me a pouco tempo! Você também está morando lá?
- Cansei de perder o jogo do Corinthians. Desculpe, mas ainda não nos apresentamos. Meu nome é Deodoro.
- Chamo-me Cecília.

E seguiram seus destinos.
Lição de física número dois: Dois corpos podem até ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, mas somente por algumas estações.





sexta-feira, 12 de agosto de 2016

(des) educação

A criança de poucos dias acabara de fazer sua refeição matinal e demonstava a sensação embevecida da saciedade do leite materno. A mãe que acabara de recompor o decote do vestido, tomou as criança ao colo de bruços e com leves tapinhas com as mãos em forma de conchinha, batia nas costas no pequeno esperando que arrotasse.
Satisfeita com o resultado, assim que o pequeno soltou um sonoro arrotinho, levou ao berço e ficou admirando seu princepezinho.
Lucas, agora com 7 anos, sentado à mesa saboreava deliciosa lasanha preparada pela mãe, com seus ingredientes favoritos: molho de tomate, carne moída, presunto e muito, mas muito queijo derretidinho. Adorava puxar bastante com o garfo até ficar só um filzinho, pegar no finalzinho e ir chupando devagarinho até chegar na ponta do talher onde estava o conteúdo principal: a preciosa lasanha. Satisfeito, se esticou na cadeira, bateu na barriga e soltou um estrondoso arroto. A mãe o olhou com estranheza e repreendeu.

- Que feio, Lucas! Não faça isso, que é falta de educação.

Costume dessa gente de ficar (des)educando filho! 





sábado, 16 de julho de 2016

Eros e Psiquê

O amor só sobrevive na dialética dos corpos
Precisa de movimento para respirar
E transformar as testes e antíteses em sínteses de prazer

O amor não suporta o estático e inabalável,
Não aceita convenções,
Não tolera preconceitos,
Não se insere em injustiças,
Não responde à determinismos,
Não comporta behaviorismos
Mergulha no inconsciente para resgatar libidos oprimidas pelo recalque.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

das artes

Poesia não é expurgo 
nem jogo de vocábulos.
Poesia é argila, 
massa disforme 
que tem em si sua formessência.


Cabe ao poeta desvendá-la. 


Sobre dias, sabores e amores.

Todos os dias têm
Cores, odores e sabores
Que só o poeta
Consegue desfrutar.

Ser poeta é saborear sutilezas.

O saber vem do sabor.
Sabido de sábado: Verbos terminados em “ar”
(Com essência de liberdade)
- Pensar, rezar, caminhar, prosear, poetar -
Só me falta o verbo “amar”.








quarta-feira, 15 de julho de 2015

Senhor livrai-me dos amores platônicos.

Olhos Olhares Mãos Toque Narizes Cheiro Bocas Salivas Glândulas Suor Olhares Cumplicidade Mãos Carícias Nazis Feromônios Bocas Línguas Glândulas Suor Coração Taquicardia Peles Roçadas Olhos Contemplação Mãos Percorrem Nariz Pulmões Respiração Ofegante Bocas Percorrem Línguas Lambem Percorrem Glândulas Suor Inundam Pele Coração Taquicardia Pele Trocas Fluídos Sexos Trocas Fluídos Olhos Trocas Fluídos Mãos Trocas Fluídos Nariz Trocas Fluídos Bocas Trocas Fluídos Coração Batidas Sincronizadas Sexo Troca Fluídos Fluídos Fluídos Coração Dispara Dopamina Endorfina Serotonina Serotonina Serotonina  Pulmões Respiração Suspiro Boca Sorriso Lábios Beijos Olhos Olhares Mãos Toques Narizes Cheiro Boca Saliva Glândula Suor Olhares Cumplicidade Mãos Carícias Naris Feromônios Bocas Línguas Glândulas Suor Coração Taquicardia...


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This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NoDerivatives 4.0 International License.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Sem apelos e sem apegos

Dizem que amor bom faz doer.
Pra mim isso é coisa de masoquista
Ou de gente que gosta de judiar,
Que faz doer pra dor poder voltar.

Dizem que amor bom marca a pele
É aquele que gruda e faz adoecer.
Pra mim o nome disso é carência.
Coisa de mal querer.

Eu não sou panela pra ter tampa,
Não sou laranja pra ter metade,
Sou completa e sou inteira.
Amor não é ludo.
Amor é matemática
Onde 1 + 1 =2.

Amor bom respeita e se faz respeitar.
Morde sem machucar,
Mata de prazer,
Anda em via dupla,
Olha nos olhos pra se ver,
Caminha lado-a-lado,
nem na frente e nem atrás,
anda de mãos com igualdade,
tem sabor de liberdade
E gostinho de quero mais.





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domingo, 21 de junho de 2015

Sou feminista e não odeio os homens


Costumo dizer que machismo é um conceito, uma ideia, que afeta todos os gêneros. Talvez com mais intensidade mulheres (cis) por termos uma convivência maior com os homens. Afinal, transamos, casamos e temos filhos com eles e assim eles passam a fazer parte das nossas vidas com mais intensidade que os demais gêneros e assim, as consequência em nós é mais presente. Mas os GLBTT também sofrem com isso. A homofobia nada mais é que mais uma faceta do machismo. Porém os próprios homens também sofrem esses efeitos, já que são obrigados a servir o exercito, a fazer a barba, não deixar o cabelo crescer, não usar brincos. 

Costumo brincar com meus amigos e dizer-lhes que a nossa luta (das mulheres) contra o machismo está muito mais adianta em relação à luta deles. Por exemplo: eu uso calças. E eles? Usam saias? Se soubessem como é bom usar saias não se privariam nunca disso.  

Logo, a luta contra o machismo não pode se restringir às mulheres. Deve ser uma luta de toda a humanidade, porque toda pessoa tem sua formação de gênero e todas elas sofrem com o machismo e de certa forma são reprodutoras deste, inclusive as mulheres, que muitas vezes em suas casas não permitem que homens se aproximem da cozinha, não cobram do homem que está ao seu lado a participação igualitária no cuidado da casa e dos filho ou quando tratam suas filhas diferente da maneira como tratam os meninos. 

Uma vez conheci uma boliviana que tinha um casal de filhos. A menina era tratada como uma escravinha e o menino como um reizinho. Até comida na boca (de um garoto de 8 anos) ela dava. Então questionei porque ela tratava o menino de um jeito e a menina de outro. Ela respondeu com a maior naturalidade: "Oras, porque ela é menina e ele é menino. No meu país homens trabalham fora, por isso devem ser melhor tratados para suportar o labor. Então eu respondi, que não sabia bem como era na Bolívia, mas estamos no Brasil, e aqui mulheres e homens trabalham. E muitas vezes as mulheres precisam se dividir entre o trabalho na fábrica e em casa. Nada mais justo que ambos dividam as tarefas. Lógico que recebi como resposta um: "os filhos são meus e eu cuido como quero". Ela não se portava assim porque era boliviana, até porque aqui mesmo muitas mulheres pensam e se comportam também assim, e creio que no mundo todo também seja assim. Mas, porque estão contaminadas com esse pensamento. Por isso antes de mais nada temos que arrancar o machismo de dentro de nós mesmos, dia-a-dia, nos policiando e pensando duas vezes antes de chamar uma loura de burra ou de uma mulher de vagabunda ou qualquer termo pejorativo. 

Já ouvi algumas feministas se dizerem contra homens e quererem tirá-los dos nossos debates, retirando-lhes inclusive a oportunidade de rever seus comportamentos e alimentando ainda mais o ódio. Elas não estão propagando o feminismo, mas um machismo reverso. Isso nada mais é que mais outra faceta do machismo. Não é repudiando os homens que vamos vencer o machismo, mas trazendo-os ao nosso lado para lutar pelas causas. Cada um com suas pautas. Claro não podemos permitir que eles decidam por nós em nossas causas, assim estarão empoderando-se de nossas lutas, mas podem perfeitamente nos apoiar e aprender conosco e também podemos aprender com eles muitas outras coisas. 

É na troca dialética que se faz a transformação, não na intolerância. 

sábado, 16 de maio de 2015

Peluda ou Pelada? Ser livre é o que importa.

Outro dia uma amiga me perguntou o que eu achava de algumas movimentos feministas que defendem a manutenção dos pelos púbis, axilas e pernas.
Então, resolvi passar pela experiência de deixá-los crescerem à revelia. Curti muito a ideia e fazia questão de sair em mangas regatas pra exibi-los. A principio a família estranhou, o namorado que eu tinha à época estranhou muito e pediu "gentilmente e inúmeras vezes" até mandá-lo à merda, para q eu os removessem. Não por esse motivo, é claro, preferi seguir sozinha a minha jornada e terminei o namoro. Afinal se namoro fosse bom não se chamava compromisso.
As pessoas foram se acostumando até que deixaram de comentar. Outro dia olhei no espelho e percebi que havia me cansado deles, então parti para minha operação lâminas (não encaro cera quente nem a pau, muito masoquismo pro meu gosto). Me senti bem também assim lisinha. Daí, percebi que ter pelos ou não é um ato subjetivo assim como optar por usar calças ou saia, ter os cabelos curtos ou cumpridos. Não é a imposição de um padrão capitalista bancado pela indústria da estética, nem a moda e nem movimentos feministas que irão decidir sobre meus pelos. Não são a presença ou a ausência dos meus pelos que me farão menos ou mais feminista, mas sim minha luta pela causa. Até porque não participo de nenhum movimento feminista, pois considero minha militância também algo subjetivo. Me incomoda ter que seguir regras e aceitar todas as bandeira de um movimento. Minhas bandeiras eu as escolhos, e como disse ontem, em relação às bandeiras: prefiro ter minhas mãos livres pra hora da batalha.
Penso que meus pelos são parte do meu corpo e assim me pertencem e cabe a mim decidir tê-los ou não.
‪#‎MeusPelosMinhasRegras‬


segunda-feira, 30 de março de 2015

A Intermitência da Morte – José Saramago (resenha)

Sempre que termino um livro nunca sei se digo, mais um ou menos um. São tantos que ainda me faltam ler. Empolgada com o fim da leitura desse livro cujo título consta acima, resolvi fazer uma resenha para ajudar-me a refletir melhor a obra e estimular aqueles que ainda não leram a se embrenharem por essas paginas deliciosas de serem lidas. 

O livro editado em 2005 pela Companhia das Letra, SP, é tão intermitente quanto a própria morte que nele se apresenta. Não que todas as mortes sejam intermitentes, mas essa em particular não é nada constante. Um país que não se sabe em que continente e nem o nome, um tempo que por suposição sabe-se contemporâneo pelas facilidades tecnológicas, nem tão avançadas quantos as atuais, porém se reconhece um certo desenvolvimento característico de uma sociedade capitalista.

A história começa com a seguinte frase: No dia seguinte ninguém morreu. Então aquela população que até então só tinha como única certeza real e impreterível da morte, acorda pela manhã com a certeza inversa que ninguém mais morrerá.  Porém, algo que deveria fator de comemorações e gozo, passa a ser causa dos maiores entraves nunca dantes visto naquelas bandas. Daí em diante,  paginas e paginas de uma crítica social muito bem construída recheada de escárnios. Como uma sociedade capitalista que tem como base a especulação de capital para obtenção de poder, não deixando escapar nem mesmo as agruras dessa tão temida senhora, fará para não deixar lhe escapar os filões d’antes embolsados com o fim de Thanatos? Como uma sociedade que tem em sua religiosidade a função de mantenedora dos moldes e padrões e tendo na morte fator preponderante de achacamento dos fieis através do pecado e promessa de um paraíso após o desenlace carnal poderá se sustentar? Como esta mesma sociedade se livrará de milhões e milhões de moribundos, verdadeiros mortos-vivos que se formam em legiões, já que o fato de ninguém morrer não quer dizer que as pessoas deixam se convalescer?

O Já o segundo momento é mais denso, existencialista e filosófico, sendo necessário uma atenção e um cuidado maior, porque é onde a trama se estabelece e segue seu fluxo. O final é obvio, e o próprio Saramago assume essa postura, ao afirmar que sim, acontecerá o que todos esperam, porém...e aí está: da mesma forma que o segredo do quadro não é a obviedade do tema e sim as maneira como o artista o representa, assim se dá também com a literatura. Nesse ponto Saragamago grandiosamente preenche seu quadro com pinceladas generosas de poesia e beleza, provando mais uma vez sua genialidade.


É um romance que nos faz pensar sobre a seriedade demasiada com que encaramos vida, a necessidade de controle sobre tudo o que nos cerca e  com isso deixamo-la passa, e que até mesmo a morte (com m minúsculo que assim ela se identifica) tem o direito de viver e amar.